O Rei Que Queria Ser Feliz – Antonio Carlos Giampietro
Era uma vez um rei que desde os tempos remotos da sua juventude, buscava a felicidade eterna. Em função disso, tratou, em todas as atitudes que tomava, de não se afastar do seu objetivo.
Os anos se passaram e o rei, apesar de seus esforços, não conseguia atingir a meta. Com frequência se sentia amargurado, entediado, sem inquietudes e sozinho. Resolveu consultar um sábio de muito prestígio que vivia nas proximidades. O sábio, ao ouvir as suas queixas, disse-lhe:
_ O homem sempre busca satisfazer os seus desejos mais íntimos, mais reprimidos. Somente quando consegue realizá-los é que se sente livre para gozar da paz e felicidade. Por isso, são tão poucos os homens felizes. Vossa majestade viveu ocultando os seus anseios com realizações que não o satisfazem.
O rei voltou ao palácio, refugiou-se nos seus aposentos e procurou refletir. Depois de algum tempo se decidiu; iria em busca de satisfazer os seus desejos e fantasias.
Por algum tempo, viveu rodeado de prazeres. Nada lhe era proibido, e para ele tudo era possível. Não obstante, apesar de tudo isso, a sensação de tédio não o deixava, nem a impressão de inutilidade da sua vida. E queria morrer.
Foi então aconselhado a consultar outro sábio que tinha grande influência no reino. Foi o que fez. Contou-lhe a sua história, as suas queixas, as suas tentativas de se livrar do mal que o afligia e escutou o conselho do sábio:
_ A satisfação dos prazeres é importante, majestade, mas não é tudo. O homem nasce se sentindo pequeno e inferior. Para superar essa sensação, deve se sentir bem e feliz, precisa conquistar poderes que lhe permitem trocar esse sentimento de inferioridade pelo sentimento de ser poderoso.
O rei voltou animado. Então era isso. Não lhe bastava esse reino, precisava conquistar outras terras e melhores riquezas. E se pôs em ação. Chamou o comandante do seu exército e lhe deu ordens.
Os anos se passavam e agora o rei, além de gozar dos prazeres, possuía o maior reino e as maiores riquezas então conhecidas em todos os arredores.
Nunca se ouviu falar de um soberano tão forte e tão poderoso. E, enquanto lutava para atingir essas metas, o rei parecia se sentir bem, mas logo ao alcançá-las, de novo o tédio, os dias monótonos e a sensação de frustração tomaram conta dele.
O seu estado de ânimo foi decaindo aceleradamente. Enfraqueceu e ficava triste e calado. Por fim, se abandonou totalmente e ficou na cama à espera da morte.
_ Morte sem conhecer o prazer de viver! _ repetia constantemente para si mesmo.
Os membros da sua família e toda a corte procuravam fazer alguma coisa para evitar o pior. Resolveram então chamar o médico real, um velhinho muito culto e com grande experiência que gostava de citar os grandes autores, que, dizia, eram amigos seus.
Comentava-se pelo reino que esse médico inventava histórias e era um tanto extravagante, mas todos concordavam em considerá-lo excelente médico e homem muito bondoso.
O médico aconselhou-os a internar o rei no hospital para poder estudar melhor o seu caso e então tratar dele.
E foi assim. O rei foi internado em um apartamento especial separado dos outros doentes. O médico conversou muitas vezes longamente com ele, e iniciou o tratamento.
_ Acho que Deus se esqueceu de mim! _ queixou-se o rei.
_ Não se deve contar demais com Deus. Talvez Deus deseje contar com a gente.
_ Mas, doutor, procuro tanto a felicidade, que oriento tudo o que aprendo para consegui-la.
_ Um amigo meu, Herman Hesse, em um livro chamado Sidarta, disse o seguinte: Quando alguém busca muito, pode facilmente suceder que seus olhos se concentrem exclusivamente no objeto buscado e que seja incapaz de encontrar aquilo que realmente deseja, e que se torna inacessível porque só pensa naquele objeto e porque tem meta que o cega totalmente. Procurar significa ter meta. Mas encontrar significa estar aberto a tudo… Pode ser que você seja pessoa que busca, já que, pelo seu afã de se aproximar da sua meta, você não percebe certas coisas que estão muito perto dos seus olhos.
_ Muito perto dos meus olhos!… repetiu o rei pensativo.
Em algumas semanas se produziu uma melhora física. O rei se alimentava bem, o seu peso aumentava e ele parecia bem-disposto. Mas o seu coração continuava angustiado.
O médico sugeriu então ao rei que, disfarçado de paisano, passasse por todo o hospital e conhecesse todos os seus súditos doentes, sem que eles o reconhecessem. O rei aceitou.
No primeiro dia parou diante de um leito onde um moribundo era alimentado por outro paciente, gravemente enfermo. Ambos pareciam irmanados naquela ação. A cena o comoveu fortemente.
Encontrou depois um jovem paraplégico que procurava, na medida das suas possibilidades, ajudar a outros companheiros. Durante todo aquele dia observou situações semelhantes. Nos dias seguintes, tornou a repetir a experiência. Pouco a pouco, foi conhecendo uma realidade que não parecia distante do seu mundo habitual.
Certa manhã, ficou tão distraído, que atrasou para o almoço. Como o hospital era pobre, apesar da riqueza do reino, não encontrou comida para que lhe fosse servida fora de hora. Para sua surpresa, um jovem paciente, muito doente, o convidou para a sua mesa e repartiu com ele a comida.
_ Muito agradecido, meu jovem! Você é muito generoso. Mas estou vendo que está muito fraco e que precisa de uma boa alimentação para se recuperar. Não pode ficar sem a parte da refeição que está me oferecendo.
_ Veja, senhor, o prazer de poder repartir o meu pão me fortalecerá. Sente-se… por favor. O rei aceitou. Sentou-se à mesa com o jovem e, durante a refeição, perguntou da vida dele. Conheceu sua pobreza, ficou sabendo dos filhos e da esposa, de quem ele tinha de cuidar e até dos pais idosos que viviam com ele.
_ Como pode manter esse aparente bom humor com essa situação difícil, com uma família que precisa de você, doente, longe dela?
_ Veja o senhor, eu não abandono a minha família. Estou me preparando para voltar a viver com eles. Esta doença foi uma fatalidade inevitável, mas procuro fazer o que está ao meu alcance para me recuperar e estou orgulhoso disso.
Vou estar bem assim que seja possível. De qualquer maneira, preciso ficar bom para cuidar dos meus entes queridos. A lembrança desse agradável compromisso me dá forças e humor para sobrelevar cada dia que passo.
O rei ficou pensativo. Como aquele pobre homem enfraquecido pela doença, sem bens materiais, sem possibilidades de gozar dos prazeres da vida, podia estar ali, apesar de tudo, aparentemente feliz? Tudo o que via parecia contradizer o que aprendera com os sábios. Intrigado, falou com o médico:
_ Doutor, que lugar é este que me produziu sentimentos imprevisíveis? Que lugar é este onde me encontro que me faz desejar participar das atividades que realizam os meus súditos mais pobres e doentes?
O médico respondeu:
_ Este é um lugar qualquer do mundo dos humanos. Outro amigo meu, Gibran Khalil Gibran, escreveu um livro cujo título é Parábolas.
Em certo momento ele diz: “Deves ter ouvido falar na montanha sagrada. É a montanha mais alta do mundo. Se chegas ao topo, nasce em ti um desejo de descer e viver com aqueles que vivem no vale mais profundo. Por isso, ela se chama montanha sagrada”. Pense nisso, majestade.
Nos dias seguintes, o rei realizou todas as tarefas que surgiram. E não eram poucas, com tantos doentes e tão pouca gente para ajudá-los. Assim se passaram várias semanas.
O rei se sentia útil, como nunca havia se sentido antes. Realizou atos de companheirismo, de amizade desinteressada, de afeto, e enfrentou a dor com valentia. Por sua vez, sentia que, apesar de estar doente, conseguia dar um grande sentido à vida. E, embora ainda estivesse magro, se sentia forte.
Passados alguns dias, voltou a falar com o médico. Sentia-se curado. O seu coração palpitava alegremente e pela primeira vez sem amarguras.
_ Doutor, em que lugar me encontro? Que milagre aconteceu? Enquanto procurava a felicidade, não a encontrei, e quando desisto de procurar, a encontro no lugar mais imprevisto.
_ Este é um lugar qualquer do mundo, majestade. Nem sempre aquilo que se procura se encontra onde pensamos que está. Às vezes, depois de percorrer numerosos caminhos e andar muitas léguas, descobrimos que aquilo que procurávamos sempre esteve muito perto de nós.
É isso que nos ensina o encantador conto O pássaro azul da felicidade. Outras vezes não notamos que, sem bússola, nos perdemos dentro de nós mesmos, e quanto mais procuramos prosseguir, mais prisioneiros estamos. Rodando então até o mais profundo dos abismos.
Lá embaixo, no escuro, sozinho, olhamos para o alto e vemos uma fenda: a nossa única saída. Através dessa estreita abertura, entrevemos o céu e as estrelas. Os abismos nos aproximam das alturas.
_ Os abismos nos aproximam das alturas… _ repetiu o rei pensativo.
_ Vossa majestade buscava a felicidade gratuita. Não é assim que ela é encontrada. O bem-estar humano surge de uma vida plena de sentido. E quando o encontra, com a realização de um trabalho, com a experiência do amor, ou enfrentando o sofrimento, o ser humano se realiza como ser autotranscendente que é.
_ Autotranscendente?
_ Sim, que se realiza fora de si mesmo, no encontro com outros, na realização de valores.
_ No encontro com outros… na realização de valores… _ repetiu o rei, ainda pensativo.
_ O bem é o encontro de todos os seres, o idioma com o qual todos se entendem, a aliança definitiva dos corações. Como já lhe disse duas vezes, majestade, este é um lugar qualquer do mundo. Volte para o seu palácio e viva como homem pode viver, procurando dar o melhor de si para que o mundo seja melhor.
_ Tenho receio de que a minha contribuição seja somente uma gota no oceano.
_ Talvez seja assim, mas o oceano seria menos oceano sem essa gota, como diria a minha amiga Madre Teresa de Calcutá.
O rei, agradecido, despediu-se do médico. A ponto de sair, resolveu, pensativo, voltar-se e comentar:
_ Doutor, o senhor possui uma grande sabedoria. Parece-me que, por modéstia, talvez, cita ideias de amigos seus que na realidade são parte das suas próprias ideias. Notei, além disso, que, através das nossas conversas, me ajudou a, pouco a pouco, dar sentido às minhas ações.
Tudo foi muito proveitoso e inesquecível. Mas tenho uma grande curiosidade: como aprendeu a agir assim, como homem, como amigo e como médico?
_ Agradecido, majestade, por suas generosas palavras. Aprendi na minha vida, com meus pais, irmãos e amigos. Com meus mestres e pacientes, em meus acertos e em meus erros…
Muito tempo atrás, era um bom rapaz e em outras terras em outro reino, durante uma guerra terrível, fui feito prisioneiro injustamente.
Comigo também foram presos numerosos companheiros e muito poucos conseguiram sair com vida. No cativeiro, durante anos, vivi as situações mais degradantes para um ser humano.
Entretanto, apesar disso, aprendi muito daquilo que sei nessa dolorosa experiência. A prisão foi a minha montanha mágica… meu fundo do abismo… Foi então que conheci o meu eterno e grande amigo, o doutor Viktor Frankl.
Apesar da sua condição de prisioneiro, ele nos falava com palavras e atitudes, do sentido da vida, da autotranscedência do ser humano e da capacidade do homem para conseguir valor mesmo diante do inevitável sofrimento.
_ A montanha mágica… o fundo do abismo… as estrelas… o valor do sofrimento… murmurou o rei. Diga-me, doutor, o doutor Frankl escapou com vida?
_ Sim, escapou.
_ Ele ainda vive? _ perguntou, com grande brilho nos olhos.
_ Longe, muito além dos mares, em um lugar muito distante deste reino, ele ainda vive. Está bastante velho, como eu também estou, mas continua trabalhando todos os dias, amorosamente para que o homem seja mais humano.
O rei respirou profundamente.
_ Para que o homem seja mais humano… homem… humano… homem-humano… agora estou começando a entender… O mundo precisa de pessoas como o senhor, como esse seu amigo, como todos os seus amigos…
_ E como vossa majestade.
O rei sorriu emocionado.
_ Gostaria de encontrá-lo outras vezes, doutor, para conversar sobre as nossas existências. Gostaria de conhecer mais coisas relacionadas com esse grande amigo seu.
_ Estou à sua disposição.
_ Eu o consultarei várias vezes, se isso não o incomoda.
_ Cada encontro será um grande prazer. Já estou desejando concretizá-lo.
O rei saiu do hospital e resolveu voltar para casa a pé. Respirava o ar puro daquela manhã como se fosse a primeira vez. Caminhou firme e seguro. Sabia o que buscar e para quê. O seu coração, por fim, estava aliviado e na sua cabeça fervilhavam ideias de novas e diferentes conquistas.
Chegou ao palácio e todos notaram a diferença. O rei estava curado e alegre.
_ Afinal, perguntou a rainha, que doença você tinha?
_ Ah, minha querida esposa, era uma doença muito simples, mas muito grave.
Eu tinha os olhos cravados no meu umbigo!
Todos os presentes riram, na certeza de que o rei estava fazendo uma piada.
In: A Logoterapia dos Contos. Pintos, C.G. Paulus, 1999
Reflexões Finais
A vida humana é uma realidade dinâmica, em movimento e permanente mudança. Mas se desenvolve em um horizonte de valores que se manifestam como realidades permanentes e estáveis, eternas.
Exemplificando: o amor vivido por nossos avós, pais, por nós, e, hoje pelos jovens são vividos de maneiras diferentes.
Os valores são permanentes, mas sua forma de encará-los ou interpretá-los tem-se modificado, de época em época, de geração em geração e de indivíduo, para indivíduo.
O homem é formado por dimensões:
Biológicas (de sobrevivência), abrigo, alimento, sexualidade, …
Psicossocial (orientada pela obtenção dos vínculos) casal, amigos, família, Deus, ao conhecimento, ao sabor, êxitos profissionais, crescimento, participação grupal, …
Espiritual surge do desejo da pessoa, especificamente da posse de valores.
O esvaziamento de valores tem um efeito trágico e duplo.
a. substitui as necessidades reais implantadas, enxertadas e uniformizadas.
A consequência é que nos mantemos em estado frequente de insatisfação. Sempre aparecerá algo novo de que necessito e não temos, a famosa “Falta”.
Cria-se assim uma indústria de insatisfeitos, que nunca serão “preenchidas”.
b. perda de sentido da coerência como: cultura de “pequenos amores”.
Apaixonamos por automóvel, celulares, tablets, perfumes, objetos frágeis e de pouca duração, com o novo modelo, logo queremos substituir.
Quando os valores perdem seu sentido singular aparecem os substitutos padronizados, perco o princípio de coerência.
Portanto à insatisfação soma-se a “falta de integridade” tornando-se trágico, pois é através desta integridade que me faz encarar, superar e transcender os pressupostos da própria existência; afastando o sujeito de descobrir o sentido singular da própria existência. Surgindo então o vazio que muitas vezes é “preenchido” com neuroses, desespero, desesperança e doenças psicossomáticas.
Precisamos recuperar em nós mesmos e principalmente nos nossos próximos “os valores”.
Eles poderão ser trabalhados através de texto-terapia, utilizando reflexões a partir das palavras utilizadas nos textos, poesias, frases, canções, desenhos, filmes e, posteriormente, discussões em assembleias educacionais dialogadas. Novos projetos poderão surgir para implementação efetiva desta urgente e atual necessidade.